Neo Neon: Jorge Lima Barreto
*
Neo Neon
Jorge Lima Barreto estava a ensaiar para uma série de concertos quando teve um sintetizador Korg Workstation no estúdio. Num aparte desse grande esforço pianistico nasceu Neo Neon, um trabalho de 4 composições seleccionadas, invenções sónicas sobre a humildade e o orgulho, em busca de uma nova simplicidade. Com Neo Neon o compositor/improvisador estabelece o seu idílio hipnótico, num rizoma horizontal de linhas melódicas simples, poliritmos discretos e arpeggios poéticos num ambiente quase minimal. Representa a aplicação de um conceito minimalista: deixar os sons entregues a si próprios, num apelo ao automatismo e ao subconsciente.
Jorge Lima Barreto
Jorge Lima Barreto começou a sua actividade musical em finais dos anos sessenta com uma série de intervenções na música experimental e no jazz. Licenciado em História da Arte doutorado em Musicologia e Teoria da Comunicação Social, é também crítico e teórico de música, escrevendo livros sobre essa matéria bem como produzindo programas de rádio, entrevistas e ensaios. Nos anos setenta fundou o Anar Band, gravando composiçõe electroacústicas a solo e com Saheb Sarbib, e a Associação Música Conceptual, com Carlos Zíngaro. Em 1982 fundou o duo Telectu com Vítor Rua, gravando uma extensa discografia e compondo música para teatro, cinema, poesia e video. Como pianista e multi-instrumentista Lima Barreto tocou e gravou com músicos como Nuno Rebelo, Evan Parker, Chris Cutler, Jac Berrocal, Louis Sclavis, Paul Lytton, Tim Hodgkinson, Eddie Prévost, Giancarlo Schiaffini, Ikue Mori, Paul Rutherford, Barry Altschul, Tom Chant, John Edwards, Sunny Murray, Sei Miguel, Elliott Sharp, Carlos “Zingaro” e Herb Robertson, tocando em salas de espectáculo de cidades como Moscovo, Nova Iorque, Paris, Londres e Pequim.
Design por Jorge Lima Barreto, Plancton Music & Joana Colaço
*
PRESS:
JORNAL DE NOTÍCIAS
Trabalho a solo de um músico com uma carreira de mais de 30 anos de total independência artística, "Neo neon" traz-nos Jorge Lima Barreto no seu melhor, com uma recordação daquilo que foi a arquitectura sonora dos Telectu.
Aqui está base de uma sonoridade peculiar marcada pelo minimalismo e, acima de tudo, por uma atmosfera planante. Quem não está identificado com a linguagem estética de Lima Barreto deve correr a ouvir este documento, onde está um testemunho fundamental da música criada por portugueses, nas duas últimas décadas.
O teclista e improvisador teve de adaptar a sua sonoridade à moderna tecnologia da workstation que utilizou em mais de hora e meia de gravação, da qual só utilizou cerca de 30 minutos para "Neo neon".
Os sons mágicos que brotam dos dedos de Barreto funcionam um pouco como uma máquina do tempo para quem acompanha a carreira dos Telectu desde há 22 anos: neles identificamos paisagens de "Belzebu", "Off Off", "Performance", "Halley", entre vários outros. Ao mesmo tempo, julgo que é ainda de realçar outro aspecto desta proposta: a forma como a sua música se apresenta acessível. Não é necessário possuir um ouvido particularmente instruído para a apreciar a beleza e a honestidade deste registo.O fruidor devedeixar-se planar, sem qualquer tipo de preconceito, com os fluidos que as colunas do seu CD jorram como se se tratasse de cataratas electrónicas .
A música produzida em Portugal precisa de discos destes: é com eles que, se calhar somente daqui a muitos anos, se fará a História. Uma chamada de atenção para a capa, de autoria de Silvestre Pestana, recente vencedor do grande prémio da Bienal de Cerveira.
Rui Branco, in Jornal de Notícias
MONDO BIZARRE
Jorge Lima Barreto, crítico, teórico e músico pertencente aos Telectu (com Vítor Rua) tem já uma longa carreira artística e académica, iniciada nos anos 60. A ele se deve, em grande medida, a divulgação em Portugal (através de programas de rádio e livros) de muitas correntes de música contemporânea de vanguarda, como a improvisação, a electrónica experimental, a electroacústica e, sobretudo, a música minimal repetitiva, que teve nos próprios Telectu, os primeiros representantes nacionais desta estética musical que celebrizou Philip Glass, Terry Rilley ou Steve Reich. Ora, Jorge Lima Barreto, sem o apoio criativo de Rua, lança-se num disco a solo (gravado em 2000, mas só editado em 2003), no qual compõe e interpreta quatro peças de música electrónica. E é uma electrónica minimalista, em texturas rítmicas rodopiantes e repleta de adornos e padrões melódicos que vão progredindo a pouco e pouco e se vão sobrepondo uns aos outros. Uma técnica de composição, de resto, recorrentemente utilizada pelos compositores minimalistas norte-americanos. Não há aqui lugar a grandes rasgos de inovação estética, mas nestas peças encontramos, de facto, essa característica tão comum nos primeiros trabalhos do dúo Telectu: a capacidade para, mesmo recorrendo a metodologias de composição já conhecidas, conseguirem criar interesse e motivação no ouvinte. É esse também o caso deste Neo Neon.
Vítor Afonso, Mondo Bizarre nº. 18 de Março de 2004
|